De onde vem o nome Brasil: da madeira ou de uma ilha?

Geraldo Cantarino 

Em outubro de 1999, tive a oportunidade de ler o artigo, curiosamente, intitulado “As origens Irlandesas do Brasil”, assinado pelo líder nacionalista irlandês e ex-cônsul britânico na África e América do Sul, Roger Casement. O texto, escrito em Belém do Pará, em 1908, e pinçado recentemente dos arquivos da Biblioteca Nacional da Irlanda pelo historiador escocês Angus Mitchell, defende uma outra explicação para a origem da palavra que deu nome às terras “descobertas” pelos portugueses: Brasil. Intrigado, iniciei uma busca, seguindo os passos sugeridos por Roger Casement, por uma velha trilha esquecida pela História, digamos oficial, e que me levaria a um mundo fantástico, riquíssimo em lendas, imaginação e sabedoria popular. A pesquisa traz à tona uma explicação diferente daquela que todos nós, brasileiros, aprendemos na escola de que o nome do nosso país veio do pau-brasil – uma árvore, hoje em extinção, de onde se extraía um pigmento que tingia de vermelho a nobreza européia.

Uma centena de livros e websites depois, fica muito claro que a palavra Brasil, assim, com todas as letras como conhecemos, já existia muito antes da chegada de Pedro Álvares Cabral nas praias da Bahia. Ela deu nome a uma ilha imaginária que se acreditava existir no litoral oeste da Irlanda e que poderia ser vista da beira-mar a cada sete anos. A tradição é muito antiga, fruto talvez de uma miragem, e foi incorporada pela cultura dos povos celtas, que circularam pela Europa há cerca de 3000 anos.

Mais do que um simples punhado de terra cercado de água por todos os lados, a Ilha Brasil foi um lugar mitológico, mágico, sagrado, considerado a morada de fadas e divindades. O próprio nome viria de um semideus, Breasal, considerado o grande rei do mundo e que vivia no país chamado Hy-Brasil (“Hy” vem de “í”, abreviação de island – ilha). A Ilha Brasil pode ser vista hoje como uma representação simbólica do chamado “Outro Mundo”, uma expressão cunhada pelos celtas para explicar o inexplicável. A morte, para eles, não significava o fim. A vida continuava neste outro mundo, que ficava em algum lugar, aqui na Terra, como a Ilha Brasil, e não no céu concebido mais tarde pelo Cristianismo.

Na transição do paganismo para a era cristã, a Ilha Brasil ganhou outros significados e passou a ser considerada como o Paraíso Terrestre ou a Terra Prometida aos Santos. E foi em busca dessa terra, que o monge irlandês, São Brandão, teria partido numa incrível aventura no início do século VI. O relato da viagem, que segundo alguns pesquisadores teria levado São Brandão e seus companheiros ao litoral da América quase mil anos antes de Cristóvão Colombo, aparece em uma centena de manuscritos do século IX. A fé, a crença e o desejo de encontrar a Ilha Brasil motivaram muitos marinheiros e experientes navegadores a se lançarem ao mar em busca dessa terra tão afortunada. Em 1498, a ilha é mencionada na carta de um diplomata espanhol na Inglaterra comunicando ao rei da Espanha que várias expedições haviam deixado o porto de Bristol, ao longo dos últimos anos, à procura de Hy-Brasil. Tudo indica que a Terra Nova, no Canadá, por onde também estiveram navegadores portugueses, tenha sido descoberta numa dessas viagens. Acredita-se que a procura da misteriosa Hy-brasil acabou sendo usada como desculpa por aqueles que saiam, furtivamente, para pescar em águas até então não muito conhecidas e riquíssimas em peixes. O nome Brasil circulava, portanto, pelos portos e embarcações da Europa, inclusive Portugal, às vésperas da descoberta de Cabral.

A ilha, apesar de nunca ter sido alcançada, existiu nos mapas e cartas náuticas da Idade Média e Renascimento. A primeira aparição cartográfica do nome Brasil, de que se tem notícia, foi em 1325, no mapa de Angelino de Dalorto, 175 anos, portanto, antes do “descobrimento” português. O último registro em mapas talvez tenha sido em 1865, o que daria à famosa ilha uma vida longa, de 540 anos, cercada de muitos mistérios na cartografia européia.

Na literatura, a presença da Ilha Brasil também não foi imaginária. São muitos os registros que se encontram aqui e ali, com pequenas variações em sua grafia. O historiador e eclesiástico galês, Giraldus Cambrensis, ao escrever Topographia Hibernica, em 1188, um tratado sobre a topografia da Irlanda no final do século XII, já contava que entre as ilhas ocidentais estava uma considerada “Phantastica”. A Academia Real Irlandesa, em Dublin, tem hoje em sua biblioteca um manuscrito, provavelmente de 1434, supostamente trazido da Ilha Brasil, com informações sobre tratamento e cura de muitas doenças.

Um outro manuscrito irlandês, do final do século XVI, nos conta a bela história de “O’Brazeel, a Ilha Submarina”. O texto é a descrição de uma formidável viagem a O’Brazeel, uma ilha que teria afundado na costa irlandesa. Lá, existiria, debaixo d’água, um pequeno país e um povo feliz. Num outro manuscrito, de 1636, encontramos a história de um certo capitão Rich e seus marinheiros que teriam visto uma ilha a oeste do litoral, com cais e promontório, antes dela sumir por dentro da névoa. Em 1675, a suposta história do desencantamento da Ilha Brasil ganhou tom de verdade e virou best-seller na Inglaterra sob o título de “O’Brazile ou a Ilha Encantada”.

No Brasil, poucos foram os autores que se dedicaram ao assunto. O escritor Gustavo Barroso, primeiro diretor do Museu Histórico Nacional e presidente por duas vezes da Academia Brasileira de tras, foi um dos que foram fundo na questão e publicou, em 1941, o livro “O Brasil na Lenda e na Cartografia Antiga”. Barroso acreditava na existência de dois caminhos, paralelos e independentes, para explicar a origem da palavra Brasil: de um lado estava a ilha e do outro a madeira. Mas, de acordo com a linguagem técnica do folclore, houve uma intercorrência da “lenda e da história, da madeira e da terra, do espírito e da matéria”, através da semelhança dos vocábulos. De acordo com Gustavo Barroso, “a mania geral de ir buscar para o nome Brasil um berço unicamente na madeira de tinturaria se vê prejudicadíssima” pela existência comprovada de antiga lenda, projetada na cartografia.

Surge, assim, um outro caminho para explicar a origem do nome Brasil. Resta saber qual explicação foi realmente associada ao batismo das terras descobertas na América do Sul. Para definir a questão, navegar, e muito, ainda é preciso. Mas, como escreveu Gustavo Barroso, “não pode haver quem não prefira que o apelido de seu torrão natal signifique Terra Abençoada, Terra dos Afortunados, dos Bem-aventurados, of the Blest, do que recorde tão somente o utilitário e vulgar comércio do pau de tinta.”

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